segunda-feira, 30 de março de 2026

Sangue

Na porta do meu ateliê há várias plantas lindas. Penso em replicá-las em barro para decorar ambientes.

O cotidiano corrido exige que façamos cópias de seres vivos belos para enfeitar os nossos arredores, já que tê-los em si envolve muito mais do que apenas a apreciação de sua beleza. Um pássaro precisa ser alimentado; uma planta, regada. O cotidiano, muitas vezes, não nos permite esse cuidado: torna-se um luxo.

Resta-nos, então, reproduzir em barro a beleza dessas criações para alegrar e compor nossos espaços.

Ao retirar a folha de uma planta, notei sua seiva escorrer. Não era verde como eu esperava. Era espessa, de um tom vinho, como sangue. E não é isso mesmo que ela é? A seiva é o sangue da planta.

Ali, eu retirei uma parte dela. De algo vivo. E ela sangrou. Não teve voz, não gritou, não se moveu, mas sangrou.

Isso despertou em mim a sensação de que ela também está viva, como eu. De que há algo que corre nela, assim como em mim.

E que atitude humana a minha: roubá-la de si para copiá-la em barro e, depois, descartá-la.

Ceifar a vida é algo profundamente humano. Penso nisso cada vez mais. Podemos criar, podemos gerar vida ! Dar à luz a outro ser humano ou a projetos, arte, música. Mas ceifar parece ainda mais intrínseco. É fácil, automático, instintivo.

Cortei a folha de uma planta e a fiz sangrar.

No meu ateliê, deixo-a sobre a mesa enquanto tento reproduzir sua forma, para então exibi-la na parede.

A planta sangrou. Ela vive!
E por isso,
pode morrer.

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